quarta-feira, 11 de abril de 2012

Meu filho se queixou da professora


Membro da Escola de Pais de Curitiba conta sua experiência como pai e dá dicas de como lidar com a relação filhos x escola


Introdução - perguntas
1. Você deve ouvir as queixas que seu filho faz em relação à Escola (ambiente, dire-ção, funcionários, professores e colegas)?
2. Você deve tomar partido dele, defen-dendo-o contra tudo e todos?
Veja as propostas de respostas na con-clusão.

O lamento
Na HORA DA LIÇÃO escutei um la-mento, gemido de “ai meu deus!” Que parecia querer conter-se, mas que saía inevitável de Rafael, meu filho de nove anos, na sua mesi-nha de estudos.
Puxei uma cadeira para perto dele e no-tei que já havia pingado algumas lágrimas nas folhas quadriculadas do caderno de matemá-tica. Olhei atentamente e notei que alguns exercícios ainda estavam sem resposta. Eram uns dez, sobre divisão, coeficiente e resto; fração e expressões. Eu mesmo me senti can-sado imaginando ter de fazê-los. Sempre gos-tei de Português, Geografia e História. Mate-mática foi meu pesadelo, principalmente por-que nem sempre via alguma utilidade prática em diversos pontos. Parece que as quatro ope-rações, a equação do 1o grau e a regra de três resolvem tudo!
- Pai, essa professora quer matar a gente! Veja quanto exercício! - Disse o Rafael com os olhinhos molhados, brilhantes, su-plicantes. As bochechas vermelhas.
Meu sentimento imediato foi de revolta contra a professora que fazia meu filho sofrer. Imaginei numa fração de segundo as satisfa-ções a tomar, mas, na próxima metade do segundo lembrei daquilo que aprendi no Cír-culo da Escola de Pais, “Meu filho e a Esco-la”. Perguntei:
- Mas, a professora não explicou como resolver estes exercícios? Ela fez exercícios parecidos no quadro?- Indaguei, tocando-o afetuosamente no ombro.
- Ela fez, sim. Na hora até pareceu que eu tinha entendido. Mas na lição parece outra coisa. Mais difícil. ELA NÃO TEM PENA DA GENTE! ELA ACHA QUE A GENTE SÓ VIVE PRA FAZER LIÇÃO!
- E, quando ela explica, a turma (quis dizer “você”) presta atenção? Faz silêncio? Há alguém que te atrapalha quando a pro-fessora explica?
- A gente não escuta nem uma mosca voando! Ela é muito brava. Só falta bater na gente! Tem que prestar atenção.
- Por quê? Ela grita, ameaça?
Rafael pensou um pouco para respon-der. – Gritar ela não grita... Só aquela cara dela já assusta a gente! Muitas vezes ela só olha e, como não tem barulho, ela fala bai-xinho “prestem atenção que isto é importan-te”.
- Então, qual é o problema meu filho?
- Ah, pai! Na aula passada, o Lucas me pediu o apontador de lápis emprestado. Eu fui entregar pra ele e levei aquela bronca! Pedir pra ir ao banheiro? Nem pensar. É melhor segurar até a hora do intervalo. Já teve guri que quase fez nas calças. É muita coisa pra estudar. É muita lição. Ela quer tudo certo. Quer que a gente aprenda de qualquer jeito, nem que sue sangue, que nem... Quem mesmo?
- Jesus no Horto das Oliveiras!
- É, isso mesmo. Parece que não entende que a gente também tem que brincar, con-versar...
Eu já não me lembrava de todos aqueles conteúdos. Confesso meu erro em não pedir para que ele me explicasse o que sabia e eu fosse acompanhando o que ele conseguisse fazer e elogiasse quando vencesse cada etapa. Meu tempo, meu trabalho e afazeres me tiraram dali, mas recomendei que ele se esforçasse; que sofreria muito mesmo, mas que era preciso. Prometi que no dia seguinte falaria com a professora.
Ele me olhou surpreso com um ar de “não precisa” e “que bom” ao mesmo tempo.
À noite, quando fui falar com ele antes de dormir, ele disse com um ar vitorioso, dis-farçado de cansaço que fizera todos os exercí-cios. – Mas, não sei se acertei! Se não acertei, a professora vai ficar muito brava! Vai dizer, de novo, que eu preciso prestar mais aten-ção... Estudar mais.

A conversa com a Direção da Escola
No dia seguinte telefonei para a Escola e pedi para falar com a Diretora . Falei o que estava acontecendo e que gostaria de conver-sar com a professora. Deixei bem claro que, diante da história que meu filho contou, de suas queixas, a professora merecia um elogio expresso. Busquei saber melhor desta profes-sora.
- É uma das nossas melhores professo-ras. Faz render. Mantém a disciplina. É exi-gente - disse a Diretora aprovando minha ida à Escola. Marcou o encontro para a hora da saída.
Quando cheguei à Escola fui recebido pela Orientadora Educacional que já sabia do assunto. Parecia uma líder de torcida, feliz por receber um pai de aluno que, ao que tudo indicava, não vinha se queixar ou tomar par-tido das queixas do filho.

A conversa com a Professora
A Pedagoga levou-me até a professora que estava com o guarda pó branco surrado, cheio de pó de giz. Um ar de firmeza, mas muito acolhedora.
Trouxeram o Rafael para perto. Eu as-sumi um ar simulado de queixoso, que a pro-fessora entendeu e logo se tornou cúmplice.
- Professora, meu filho diz que a senho-ra é muito exigente, que quando explica os conteúdos faz todo mundo ficar quieto e pres-tar atenção; passa muita lição e no dia se-guinte corrige todos os cadernos. Não perdoa! É verdade?
- É a mais pura verdade, pai! Disse se-gurando um sorriso.
- O Rafael sofre muito para resolver todos os exercícios. Eu até sinto vontade de fazer a lição dele, mas nem que eu soubesse o conteúdo, o faria. Confesso que não tenho acompanhado seu horário de lição como de-veria. Apenas me limito a perguntar se ele fez, se conseguiu boa nota, etc. Ele sempre fala de seus sucessos, mas agora, com relação à senhora, ele admite seus insucessos. A senhora está judiando da rapaziada?
- Que bom ver o senhor admitir que deve acompanhar as lições de seu filho, sempre que puder. Que jamais deveria fazê-las por ele. É bom saber que ele tem um ho-rário para estudar em casa! O problema, pai, é a velha história dos maus hábitos gerados pela cultura da mediocridade que tem se imposto no mundo escolar: alguns fingem que ensinam, de modo que os alunos fingem que aprendem ou, simplesmente, se acomodam. Os efeitos são sentidos quando aparece um professor que exige ou ao longo da vida, começando pelo vestibular.
Os olhinhos do Rafael pareciam os de um assistente a um jogo de pingue-pongue, prestando atenção a cada saque, a cada joga-da. Falamos ainda da importância da parceria entre pais, escola e professores; que aquela Escola Pública estava entre as que promovem este expediente, mas que, infelizmente, muitos pais não correspondem... Perguntei.
– Como é o aluno Rafael?
Ela respondeu de pronto, demonstrando conhecer o “cliente”.
– Ele é esforçado, mas é muito popular. Seus amigos o distraem muitas vezes.
Depois, falou mais baixinho, como que-rendo que só eu ouvisse.
- É inteligente e criativo!
Gostei dessa. A Professora certificou a boa prática pedagógica que é melhor valorizar a virtude do esforço, do que qualidades como a inteligência em si mesma.
Acontece que o “Rafa” ouviu e pude perceber o olharzinho e o sorriso, de boca fechada, de satisfação.
Cumprimentei a Professora com as duas mãos.
– Parabéns pelo seu trabalho, sua de-dicação. E, muito obrigado por ser exigente e corrigir todos os cadernos e exercícios que passa. Sei que a senhora não ganha por tanto trabalho, por tamanha dedicação! É preciso que os pais reconheçam o bem que a senhora está fazendo pelos filhos dos outros. Tem a minha admiração e sei que não preciso nem “autorizá-la” a continuar fazendo o que tem feito pelo meu... Desculpe! Pelo “nosso” Ra-fael!
Sem dizer nada, a Professora se aga-chou na altura do Rafael e lhe deu um abraço e um beijo no rosto, com a leveza que só uma avó (mais que mãe) é capaz de fazer.

Conclusão – respostas
É redundante responder as perguntas da introdução, tanto pelo testemunho desenvol-vido, quanto pelo bom senso que a maioria absoluta – graças a Deus! – dos pais vêm de-monstrando, com raras exceções.
Mas, vamos lá:
1. Sim, você deve ouvir tudo o que seu filho fala, inclusive suas queixas em relação à Escola. Elas têm muita importância para ele e pode ser que tenham alguma ou grande im-portância para vocês, pai e mãe. Ouça, per-gunte os detalhes, mas não faça parecer uma inquirição “policial”. Não o louve, nem o con-dene logo de cara. Busque analisar cada fato narrado junto com ele, fazendo-o colocar-se no lugar dos que “o ofenderam”, para tentar, a todo custo, compreender os motivos “da ofensa”. É importante que seu filho de-senvolva a capacidade de perdoar quando os ofensores realmente estiverem errados – para não adubar raiva e sentimento de vingança - e, muito mais, para que seu filho, pela razão e também pelo coração, saiba admitir quando ele estiver errado, no todo ou em parte.
2. Tomar partido do filho: depende. Cada caso deve ser analisado como sugerido na resposta anterior. Em sentido amplo, você poderá defendê-lo expressamente quando ele realmente não puder fazê-lo por si só, com razoável equilíbrio – o que é muito difícil para uma criança ou mesmo um adolescente, pois, ele pode achar que “se defender” é entrar para um curso de artes marciais ou, mesmo, treinar corrida (até que é uma boa estratégia!); ou fazer “amigos” que “lutem em sua defesa”. Tudo errado!?
O espaço e a proposta deste escrito não permitem falar nos diversos casos, ao menos os mais comuns, como o bullying e a violência física, por exemplo.
Nossa história deixa claro que, em re-lação aos professores, só tomamos partido do filho quando ficar absolutamente claro que o professor está equivocado. Mesmo assim, a situação não é resolvida com a criança. Deve iniciar diretamente com o professor, com muita cautela e educação. Se não der certo, deve reunir-se com as direções administrativa e pedagógica, bem como, com a Associação de Pais e Professores da Escola e, por fim, se o problema persistir, pode se buscar o Núcleo de Educação (no caso da Escola Pública) ou o Poder Judiciário em última instância e dependendo da gravidade.
Foi-se o tempo em que as crianças ti-nham as professoras como “segundas mães”, que até chegavam a puxar as orelhas dos alunos, mas não havia ódio. Havia o afeto e a “cumplicidade”. Não vamos resgatar os puxões de orelha, nem a palmada, é claro. Vamos resgatar o afeto, a dedicação, a boa cumplicidade. Os professores de nossos filhos merecem nosso crédito, nossa confiança e AMIZADE!
Ah, já ia esquecendo. O Rafael agora tem 18 anos e provavelmente será Engenhei-ro. Os exercícios de matemática, agora, são muito mais difíceis, mas ele os enfrenta, sem choro.

João Batista Athanásio, membro da Escola de Pais – Seccional de Curitiba, PR. jbathanasio@ig.com.br.

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